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Entre os humanos

18 Set

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Estou sempre com raiva de tudo, sou um desses merdas que vagueiam pelas ruas, ainda inconformados com a morte do Kurt Cobain, tudo poderia ter sido melhor se aquele cuzão não tivesse se matado. Bem, coisas da vida! Não há o que se fazer, morreu e pronto, bola pra frente. Aquela angustia na alma que ele sabia mostrar ficou nos anos noventa.
Achei que seria impossível ouvir o nirvana, nesta porra de casamento, mas não, estão tocando esta merda!  Olhei nos bolsos e o cigarro estava no fim, resolvi sair um pouco, ir até o bar e aproveitar pra dar um gole numa vodca. Que merda eu estou fazendo aqui? Pensei. Depois lembrei que era por causa da Marisa, amiga de infância.  A gente cresceu junto,  Ela sempre me deu uma força, quando eu precisava desabafar ou me esconder por uns tempos.
Não ando com grana,e já faz um bom tempo, estou precisando fazer uns bicos por aí. No mundo tem tanta grana e eu aqui com estes trocados no bolso, que bosta!
Deita todo mundo no chão, bando de filho da puta! Ordenou aquele moleque branquelo, com menos de cinquenta quilos e cara de pedinte de rua. Não olha pra mim, que eu meto bala, vai jogando no chão a carteira e o celular e não fica me tirando de otário, que aqui não tem trouxa não! Falava com a voz violenta e ameaçadora ao mesmo tempo.
Que porra! Que bar do fim do mundo, vim parar. Pensava comigo. Tudo bem, vamos arrumar as idéias e ver o que se pode fazer aqui. Olhei deitado nos pés do menino e vi que o numero do tênis era pequeno, seus passos eram muito rápidos e ansiosos, seu jeito de abrir a carteira e retirar o dinheiro e os cartões de crédito era meio grosseiro, parecia meio assustado.
Resolvi negociar a situação. Eu saí do corpo e dei uma olhada em todo o ambiente. Havia sete reféns, seis homens e uma mulher, talvez a namorada de algum, talvez alguns entediados com a festa de casamento. Bem! O moleque era principiante, notei quando colocava a arma na cintura, não tinha respeito pelo revolver, o instrumento de trabalho deve ser a figura maior neste caso.
O que fazer? Pensei, vou deixar tudo acontecer, sem me meter. Não vou tentar mudar nada neste quadro, deixa o garoto pegar estes trocados e sair logo.
Mas o problema foi que o filho da puta do moleque foi chutar a menina, que não tinha grana nenhuma. Puta que pariu, aí não dá! Decidi agir…
Sair do corpo sempre foi normal pra mim a muito tempo. No começo eu ficava muito confuso e com muito medo de estar morto, depois fui aprendendo a lidar com isso sem me achar um débil mental. Comecei a perceber que de acordo com alguma emoção, conseguia ter controle sobre certos objetos, às vezes conseguia fazer um brinquedo sair do lugar. Com o tempo, agindo com mais habilidade, saia do corpo quando queria e me dava tapas pra ver o que acontecia com o corpo imóvel, muitas vezes até, sem respirar. De tanto fazer isso, me tornei especialista em enxergar nas pessoas os seus medos mais profundos, entrava em contato com a memória e retirava dali suas histórias. Podia ver, como em um filme, sua trajetória antes de chegar até aquele momento.
Vi meu coração batendo mais rápido e assustado naquela cena, vi o desespero daquela menina apanhando e vi aquele moleque totalmente vulnerável a mim. Entrei no seu campo de ação motora e com um simples toque mental no seu sistema nervoso, relaxei totalmente suas pernas. Na verdade, enviei um comando de fraqueza nas pernas e ele começou a cambalear, como se estivesse bêbado. Depois alterei a postura da voz e dei-lhe gagueira. Por fim eu dirigi meus comandos eletromagnéticos pra os seus olhos invertendo os sinais da córnea e ele começou a enxergar tudo de ponta cabeça.
Eu tinha que ser rápido, pois isso dura poucos segundos e as pessoas talvez não percebessem o que estava acontecendo com ele. Voltei imediatamente pra meu corpo, me levantei e fui na sua direção. Tomei o revolver das suas mãos, aproveitando a fragilidade momentânea e o empurrei até a calçada do bar. As pessoas deitadas no chão levantaram-se extremamente vingativas e sagazes por vingança. Começava ali um processo de linchamento e todo tipo de violência contra o menino. A mulher que fora socada no rosto pegou uma faca na pia e começou a esfaqueá-lo sem muita habilidade, não sabendo ao certo, onde feri-lo. Fui vendo o sangue jorrar pela calçada e o corpo miúdo do menino agonizando pedindo socorro pelo chão.
Uma roda se formou em volta e olhares ávidos por justiça comemoravam a reação das vitimas.
Enquanto o menino que recobrava as funções motoras e a sua visão, tinha que se defender das facadas da mulher enlouquecida naquele momento. Até que a policia chegou e pôs fim aquela farra. O menino foi levado pra o hospital ainda com vida e a mulher pra delegacia, ainda com raiva. Sai rapidamente daquele burburinho andando pelas ruas próximas do local , acendi meu cigarro e  senti minha cabeça ficar totalmente zonza e tudo começou a escurecer. Consegui caminhar alguns passos até cair ao chão, sem perceber que havia levado um tiro, desde então vagueio entre os humanos, esta raça de estúpidos.

 

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One response to “Entre os humanos

  1. Marcos Tavares

    24/10/2013 at 6:23 PM

    Que loko! Não sabia que escrevia contos….

     

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