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A farsa de um agente

05 Jan

Caminhava pela estrada de terra rumo a rodovia para encontrar um posto de gasolina. Meu carro estava 1450178_211609315686254_1868628989_ncom o marcador de gasolina quebrado e achei que seria possível chegar ao posto mais próximo. Por vários motivos ainda não tinha arrumado este defeito e naquela estrada, com um galão na mão, pensava sobre isto.

O que será que faço neste mundo que me faz passar por situações tão absurdas como esta, ficar sem gasolina no meio de uma mata numa estrada cheio de buracos em São Sebastião? Será que preciso aprender a ser mais organizado? Será que estou sendo punido por atitudes de outras encarnações, será que é necessário acontecer isso comigo mesmo? Porque não tenho controle de me safar das intempéries da vida? Eram muitas perguntas em minha cabeça, além do fato de estar com uma puta dor de cabeça provocado por uma renite que a muito tempo não cuidava.

Comecei a entrar em um labirinto de respostas vindas de pensamentos que não me eram familiar. Assistia uma guerra de acusações ao mundo e lembrava das reuniões filosóficas que tinha aos dezoito anos com meus amigos de bar, bravejando bêbados, ideias absurdas sobre a vida.
Cheguei a uma conclusão meio sem pé nem cabeça que foi se desenrolando durante a caminhada até o posto de combustível.
Não sou agente da minha vida! não há como ser. Não é possível o livre arbítrio para os seres humanos nem mesmo para as bactérias mais microscópicas. Não tenho controle do que faço, nem mesmo escolho entre uma roupa ou outra. Tudo é uma ação original espontânea e universal que cabe a mim apenas reagir.
O fato de pensarmos ser o dono da ação é devido ao fato de sermos naturalmente orgulhosos de uma imagem de si que é totalmente falsa. O mundo vem a mim e eu reajo a ele. É simples assim! Mas aceitar isto é a mais difícil das tarefas. Esse fato desconstrói a presunção de sermos aquele que realiza e é premiado por suas ações. Então podemos ir aos fatos concretos e desmascarar este agente que imaginamos ser.
Em primeiro lugar, devemos entender que somos todos parte integrante da natureza, e que como partes, participamos dela, não a conduzimos. Somos engrenagens que se encaixam em um movimento manifesto que se apresenta diante dos nossos sentidos.
Tudo que achamos ser uma ação é na verdade uma reação, determinada por um ambiente que reagimos com nossos instrumentos intrínsecos e herdados pelas circunstancias que foram ao longo da vida apresentadas.
Que força interior move um alpinista a escalar o monte Everest? Que desejo faz com que eu fume, sabendo que me faz mal, que eu beba sabendo que ficarei bêbado, que eu dance e me achem tolo, que eu viaje para descansar e volte mais cansado ainda, que eu me case sabendo que isso privará muito minhas ações de liberdade, que eu ame alguém que não me ama?
Todos os desejos que nos movem, brotam inconscientes em nossa mente e vão se expandindo até que se realizem e tornem-se manifestos. Somos instrumentos do mundo que quer se conhecer, diria alguém poeticamente. Eu diria que reagimos ao mundo pelas possibilidades individuais de acolher a sua vontade de ação.
Estou andando na rua e alguém irritado me xinga, me humilha, ameaça me agredir se eu não sair da frente dele. Olho pra meu interior e vejo que sou covarde e que não gosto do embate, ignoro e continuo meu caminho e depois julgo-lhe por ser simplesmente um estupido, confortando minha covardia e aceitando meu comportamento. Estou ciente do que sou, do que quero preservar como identidade adquirida. Alguns passos adiante encontro um revolver carregado à beira da calçada, perdido por um policial relapso, ponho em minha cintura e continuo a caminhar. Pensamentos diferentes começam a vir em minha mente, por que? Por qual motivo? Talvez porque agora eu posso ser mais forte do que minha covardia. Volto pelo caminho onde fui ameaçado e atiro na pessoa que me ultrajou sem que não houvesse motivo algum de me ofender. Fico pensando onde estaria minha ação neste caso e não a encontro de forma alguma.
Estas ideias começam a se multiplicar em minha cabeça, quando minhas mãos começam a doer carregando o galão cheio de gasolina fazendo o caminho de volta ao meu carro sem combustível. Debato comigo mesmo o exemplo pensado a pouco e começo a negar minha reação de vingança e assassinato. Surge a possibilidade de ter sido diferente o quadro do acontecimento. Imediatamente vem em mim um estado de revolta e dor, por ter sido tão idiota ao ponto de deixar faltar gasolina no meu carro e estar sofrendo com dores horríveis em minhas mãos, tendo que carregar esta porra de galão. Começo a me xingar e me revoltar comigo mesmo. Um carro vem em minha direção cheio de pessoas rindo alto e parecendo drogadas, olham pra mim e gritam alto: Se fodeu, seu trouxa! Depois partem rindo mais alto ainda e olham pra traz com zombaria e desprezo. Meu estado emocional altera muito e tenho vontade de ter o revolver que tinha na minha imaginação. Então penso como sou apenas um reagente dos fatos.

fotos-emocionantes-27Nada que acontece esta sobre meu comando, estou sendo levado a caminhos sempre diferentes de estados racionais e emocionais. O mundo externo influencia tudo que devo fazer sem que eu possa escolher. Se ajo apenas diante do apresentado, como pode ser isso uma ação? Se diante das circunstancias já fica predeterminado aquilo que devo fazer por ser a única escolha possível, pois sou guiado a realizar o que é da minha natureza fazer.
Lembro de exemplos banais do passado e tento contestar esses pensamentos, mas o primeiro que me vem é de onde veio esse próprio pensamento? De onde vem os pensamentos que passam na minha cabeça, por quem são enviados, quem deu a autorização deles virem a mim? Por que não ficam em uma estante imaginaria e vou a eles para escolher qual deles devo pensar? Se não sou dono do que penso, pois não os escolho, sou apenas um espaço-tempo onde eles se manifestam, então, apenas reajo a eles e os deixo conduzir minhas ações, que fica claro aqui que são só reações.
Planejo minhas férias para um praia bem legal, levo em conta todas as possibilidades: Dinheiro a ser gasto, pois o lugar tem o seu preço, não fui eu que os fiz.
Também considero as praias próximas e quem os frequenta. Elas já estavam lá com seus atrativos e foram oferecidas a mim o que poderia agradar-me nelas, não fui eu que criei nenhum atrativo para elas, apenas reagi as suas possibilidades.
Os turistas que frequentam tais praias tem suas características, tais como: educação, rodas de samba ou lual, povoamento, exageros, consumo de álcool, etc….
A infraestrutura, distancia a ser percorrida, o comportamento do mar, se é bravo ou calmo, se tem ondas ou parece uma piscina, etc…. Todas estas possibilidades vão ao meu interior e lá se encaixam naquilo que eu espero ser o prazer que preciso para estas férias. Então neste momento existe escolha? Penso eu. –Negativo, não existiu em nenhum momento escolha alguma. Você tem férias porque seu stress e seu corpo precisam de novos ares para se recuperar, houve escolha aí? O lugar aonde você escolheu para ir está dentro de todas as possibilidades de um quadro interno que você não criou, foi-lhe direcionando e você foi tendo a impressão de ser suas as escolhas, mas não foram.
Escolha agora fazer qualquer coisa que não esteja de acordo com uma autorização externa e perceba que não poderia. A vida que te guia não é sua, a própria sensação de ser uma vida é uma ilusão.
Colocando gasolina no tanque de combustível, pensei em acender um cigarro, mas outro pensamento veio e proibiu. Pensei em voltar pra casa e desistir de ir a algum lugar, mas outro pensamento veio e me deu incentivo de ir adiante. Entrei no carro e pensei em ir até um quiosque para tomar uma cerveja e comer uns camarões, antes porém, outro muito mais forte me ordenou passar no posto de combustível e completar o tanque, enquanto que outro dizia que já podia fumar…
Existe um turbilhão de possibilidades acontecendo dentro da tua e da minha cabeça, mas existe somente uma coisa a fazer, nunca há dualidade. Somente uma ideia de probabilidade mal compreendida, um sonhar acordado que não tem função objetiva nenhuma.

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Assim que cheguei ao quiosque, vi que estava muito cheio e havia muitas pessoas ali tomando cervejas e comendo seus petiscos, poderia escolher ir a um outro lugar, pois eu queria um pouco de privacidade e sossego, mas as circunstancias me fizeram parar ali mesmo. Mas, por que? Pensei. Logo me veio a resposta: os acontecimentos é que acontecem, não eu que aconteço, eu apenas sou guiado a presenciá-los, pois todos os fatos só fazem sentido diante da minha reação a eles, se assim não fosse, uma peça estupida e sem graça poderia ficar anos em um teatro sem que a reação da plateia as influenciasse a sair de cartaz ou mudar seus personagens enfadonhos.
Só a reação pode mudar a ação externa e não a ação mudar uma reação. Quer dizer que ao reagirmos mudamos o quadro externo? Sim e não ao mesmo tempo. Sim se você estiver desperto e ignorá-lo e não se você se importar com ele ao cabo de transforma-lo em novas reações.
Explicarei mais tarde esta afirmação, pois o fato mais lógico que percebo até agora é que reagimos à reações. O verdadeiro autor da ação é desconhecido neste quadro, iremos a sua busca em breve, antes porém temos que desmascarar uma outra grande mentira: A existência de um Eu que se intitula o autor da ação.

CONTINUA EM BREVE

 
1 Comentário

Publicado por em 05/01/2014 em crônicas, TEXTOS DIVERSOS

 

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One response to “A farsa de um agente

  1. Marcia Venturin

    07/01/2014 at 12:52 PM

    Muita grata por seu texto que acrescenta mais uma peça ao confuso puzzle que é minha vida.
    Como diz Paulo em Romanos 7,19 : ” Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.
    Abraços

     

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