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Arquivo da Categoria: contos fantásticos

Casamento funcional

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-Me passe o azeite, disse ele.
-Comprei um daqueles que é trufado, quer experimentar? Disse ela.
-Acho que não, pega o de sempre, amor!
-Gostou do aspargo? Tem tempero novo.
-Está ótimo, quando entregaram? Parece tão fresco!
-Ontem à tarde, eu estava chegando da academia.
-Por falar em academia, você tá dando pra aquele André ainda?
-Não, ele arranjou uma namoradinha nova.
-Sério! te deixou de lado, que filho da puta!
-Não queria mais, mesmo! Já estava de saco cheio de ter que ficar trepando de manhã cedo. Chegava atrasada pra pegar o Marcelinho na escola. E o diretor ficava me olhando com rabo de olho, como quem diz, que mãe mais irresponsável! Toma no cu dele, cuzão do caralho, vai cuidar da vida dele!…Me passa o arroz, amor!
-Puxa que cara trouxa! Cadê o Marcelinho, falando nisso? Perguntou lhe dando a travessa de arroz integral.
-Ele esta na casa de um amigo, eles estão com um trabalho pra entregar esta semana na escola.
-É o namorado dele?
-Não! Eles terminaram já faz tempo.
-Puxa, sou sempre o ultimo á saber. Ele sofreu? Preciso falar com ele pra ele me contar como aconteceu. Ele só conta estas coisas pra você. Parece até que não confia no pai.
-Calma, meu amor. Eu estou com ele todos os dias, você precisa cuidar de outras coisas. Por isso ele tem dificuldade de conversar com você, acha que vai te incomodar. Só isso!
-Fala pra ele, que eu o amo muito, que estou sempre pensando nele.
-Relaxa, amor! Ele sabe que você é um bom pai. Mudando de assunto… O sindico veio fazer fofoca de você pra mim de novo. Ele te viu com a Nívea, dentro do carro, quando ela estava chupando seu pau.
Jogou o talher em cima da mesa, irritado.
-Aquele desgraçado, não tem mais o que fazer, não? Fica na garagem espiando o que eu estou fazendo, vou aplicar um corretivo nele, deixa ele comigo!
-Calma, amor! Só falei pra você tomar mais cuidado.
-Avisa aquele chifrudo, pra cuidar da vida dele. Eu ando meio sem paciência ultimamente. E você sabe disto! É para o próprio bem dele.
-Eu vi no jornal o que você andou fazendo, cuidado, amor!
-Fica tranquila, esta tudo sobre controle, logo vão esquecer, e o meu nome esta em sigilo, não existe nenhuma ligação comigo, fiz tudo certo como sempre.
-Você sabe o que faz, confio em você… Enche meu copo de vinho, por favor.
Um longo silêncio na sala de jantar tomou conta do ambiente, houve apenas pequenos risos de ambos, direcionados ao celular trocando mensagens.

Após a sobremesa, foram ao jardim, preservando um hábito de anos de convivência em comum, viam as flores novas, as plantas que tinham morrido recentemente e as que estavam nascendo. Era uma espécie de compromisso que tinham desde os primeiros anos de casamento.
-Neste fim de semana, vou viajar para Angra com nossos amigos. Disse ele.
-Ah Amor!! Me deixa ir também, vai ter festinha na casa do Miro?
-É claro que vai, ele já armou tudo, acho que vai ter até umas meninas da Argentina, ele garantiu que tem virgem desta vez. Mas é proibido levar a mulher ou amantes. Vai ser um encontro de lobos solitários.
-Ah que pena! Queria tanto ir de novo.
-Você já esqueceu a dor no cu, que teve durante uma semana, da ultima vez que foi comigo?!
-Não esqueci não, amor, nosso médico até ficou preocupado com o tamanho do estrago. Mas da próxima vez eu vou me controlar. Prometi a mim mesmo.
-Você é mesmo uma Puta, não é, meu amor? Não pode ver um negrão de rola grande.
-Eu não sabia que era tão grande, até entrar tudo na minha bunda. Puta que pariu, que negão gostoso!
-Numa outra vez, você vai, eu prometo. Mas você vai ter que se conter, tá?
-Tá bom, amor, eu prometo.

Eles saíram do jardim indo aos aposentos, já estava um pouco tarde, e estavam com um semblante de cansados após um dia longo de tarefas. Eles não tinham segredos, apenas sabiam como lidar com as indiferenças, quando havia alguma. Ela se afastou um pouco dele para atender ao celular e pode-se ouvir apenas uma voz alegre e surpresa: Viva!
Ele tirou a carteira do bolso e colocou-o próximo a escrivaninha, como sempre. Pegou celular e digitou apenas uma palavra em uma mensagem: Mate!

 

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Criança superpoderosa

No banco de trás do carro, João Pedro, único filho do casal, estava ainda emburrado por sair tão tarde daquela festa. Ele já tinha perdido tempo demais com seus primos, que pouco via e que não fazia questão alguma de vê-los. Mas o pior era ter deixado o novo jogo no vídeo game para ir a uma destas festas insuportáveis de família.
João Pedro era um menino que vivia sempre as voltas com seus pensamentos, sua mãe achava muito estranho, um menino de 12 anos que se relacionava tão pouco com o mundo externo. Vive no mundo da lua, dizia sempre sua mãe para seus amigos e conhecidos.
O fato era que ele tinha super poderes, mas era um segredo, se acaso alguém soubesse disso poderia perder esses tais poderes subitamente.
Naquela noite ele decidiu não usar sua capacidade de controlar as pessoas com seus pensamentos, resolveu ir até onde poderia suportar seu desagrado com o acontecimento e foi.
Quando o carro parou no semáforo, dois assaltantes invadiram o banco traseiro, ficando um em cada lado de João Pedro, gritaram para o seu pai: é um assalto! Continue dirigindo este carro seu filho duma puta.
Pedro Luís, um médico reconhecidamente famoso, seguiu a ordem dada pelos assaltantes, embora pálido naquele momento, ainda pôde confortar a sua esposa, dizendo pra ela ficar calma e que tudo ia acabar bem.
Um dos meliantes no carro estava um pouco mais nervoso e era bem agressivo, começou a gritar com a mãe de João Pedro e arrancar os seus brincos enquanto esfregava na nuca do seu pai um revolver calibre 45, prata que brilhava durante os reflexos dos faróis dos outros carros ameaçando matar a família inteira se ele não fizesse o que estava mandando.
-Fique calmo, dizia ele aos ladrões e olhava para os olhos do filho, que parecia estar mais calmos do que nunca, indiferente ao fato presente. Filho fica tranquilo daqui a pouco nós chegaremos a nossa casa, dizia essas palavras com voz um pouco trêmula.
João Pedro achou que já era hora de usar os poderes, mesmo sabendo que seria pela ultima vez. Por uma razão justa, ele decidiu que proteger a família seria por uma causa nobre. Dirigiu seu olhar a um dos assaltantes e fez sua mão ficar tão fraca que mal conseguia segurar o seu revolver, olhou para o outro e o fez se sentir tão assustado dentro do carro, que começou a tentar destravar a porta para sair correndo, ao mesmo tempo, que gritava socorro por sentir ameaçado por alguma coisa que só João Pedro sabia.
A mãe do menino ao ver aquela cena, sentiu uma raiva tão estranha que mal cabia dentro de si, ordenou ao seu marido que encostasse o carro próximo a um terreno baldio que tinha no caminho.
-Vamos arrancar estes filhos da puta do carro e descarregar sua própria arma em suas cabeças.
O marido inconformado com tal atitude relutou a ordem e tentou acalmar sua mulher, dizendo que não estava em nossas mãos tal punição, ainda tentando entender o que se passava naquele carro. Como de repente um dos assaltantes se enfraquecera tanto que mal podia segurar sua própria arma? Como o outro estava tendo um ataque de pânico desesperador que dava até dó, sendo ele um psiquiatra renomado e conhecendo tal sofrimento.
Embora relutante, estacionou o carro ao lado do terreno baldio, e destravou as portas, permitindo que saíssem de dentro. A mulher aos berros gritava com eles para saírem dali imediatamente, mas era inútil. Eles estavam petrificados no banco traseiro. Ela ainda não sabia quais eram os planos do menino.
João Pedro então pediu para que saíssem e ficassem nus no meio da rua, depois, que entrassem no terreno abandonado e que duelassem até a morte. Enquanto seus pais fossem assistindo extremamente calmos toda cena que estava se desenhando na sua cabeça.
Os dois assaltantes brigavam com pedaços de pau e pedras que encontraram no terreno, impondo hematomas e sangramentos um ao outro até que caíssem ao chão, exaustos e entregues a morte.
João Pedro achou que já estava na hora de reencontrar o vídeo game, achou que aquela luta poderia se arrastar por muito tempo. Pegou o revolver prateado calibre 45 que brilhava, mesmo no escuro, e caminhou próximo das suas vitimas, descarregando as balas no peito e na cabeça dos assaltantes até que deixassem de respirar.
Estranhamente, ele parecia sorrir, como se tivesse vencido uma fase de um jogo novo. Os pais se calaram e voltaram ao carro como se nada de anormal tivesse acontecido. Apenas, um silêncio ficou no ar, algo de surreal e extraordinário. Prometeram nunca mais tocar no assunto.
No outro dia o telejornal mostrava os corpos, quase dilacerados e roxeados pelo frio. Um homem, uma mulher e uma criança, estranhamente com um sorriso no rosto.

 

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Entre os humanos

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Estou sempre com raiva de tudo, sou um desses merdas que vagueiam pelas ruas, ainda inconformados com a morte do Kurt Cobain, tudo poderia ter sido melhor se aquele cuzão não tivesse se matado. Bem, coisas da vida! Não há o que se fazer, morreu e pronto, bola pra frente. Aquela angustia na alma que ele sabia mostrar ficou nos anos noventa.
Achei que seria impossível ouvir o nirvana, nesta porra de casamento, mas não, estão tocando esta merda!  Olhei nos bolsos e o cigarro estava no fim, resolvi sair um pouco, ir até o bar e aproveitar pra dar um gole numa vodca. Que merda eu estou fazendo aqui? Pensei. Depois lembrei que era por causa da Marisa, amiga de infância.  A gente cresceu junto,  Ela sempre me deu uma força, quando eu precisava desabafar ou me esconder por uns tempos.
Não ando com grana,e já faz um bom tempo, estou precisando fazer uns bicos por aí. No mundo tem tanta grana e eu aqui com estes trocados no bolso, que bosta!
Deita todo mundo no chão, bando de filho da puta! Ordenou aquele moleque branquelo, com menos de cinquenta quilos e cara de pedinte de rua. Não olha pra mim, que eu meto bala, vai jogando no chão a carteira e o celular e não fica me tirando de otário, que aqui não tem trouxa não! Falava com a voz violenta e ameaçadora ao mesmo tempo.
Que porra! Que bar do fim do mundo, vim parar. Pensava comigo. Tudo bem, vamos arrumar as idéias e ver o que se pode fazer aqui. Olhei deitado nos pés do menino e vi que o numero do tênis era pequeno, seus passos eram muito rápidos e ansiosos, seu jeito de abrir a carteira e retirar o dinheiro e os cartões de crédito era meio grosseiro, parecia meio assustado.
Resolvi negociar a situação. Eu saí do corpo e dei uma olhada em todo o ambiente. Havia sete reféns, seis homens e uma mulher, talvez a namorada de algum, talvez alguns entediados com a festa de casamento. Bem! O moleque era principiante, notei quando colocava a arma na cintura, não tinha respeito pelo revolver, o instrumento de trabalho deve ser a figura maior neste caso.
O que fazer? Pensei, vou deixar tudo acontecer, sem me meter. Não vou tentar mudar nada neste quadro, deixa o garoto pegar estes trocados e sair logo.
Mas o problema foi que o filho da puta do moleque foi chutar a menina, que não tinha grana nenhuma. Puta que pariu, aí não dá! Decidi agir…
Sair do corpo sempre foi normal pra mim a muito tempo. No começo eu ficava muito confuso e com muito medo de estar morto, depois fui aprendendo a lidar com isso sem me achar um débil mental. Comecei a perceber que de acordo com alguma emoção, conseguia ter controle sobre certos objetos, às vezes conseguia fazer um brinquedo sair do lugar. Com o tempo, agindo com mais habilidade, saia do corpo quando queria e me dava tapas pra ver o que acontecia com o corpo imóvel, muitas vezes até, sem respirar. De tanto fazer isso, me tornei especialista em enxergar nas pessoas os seus medos mais profundos, entrava em contato com a memória e retirava dali suas histórias. Podia ver, como em um filme, sua trajetória antes de chegar até aquele momento.
Vi meu coração batendo mais rápido e assustado naquela cena, vi o desespero daquela menina apanhando e vi aquele moleque totalmente vulnerável a mim. Entrei no seu campo de ação motora e com um simples toque mental no seu sistema nervoso, relaxei totalmente suas pernas. Na verdade, enviei um comando de fraqueza nas pernas e ele começou a cambalear, como se estivesse bêbado. Depois alterei a postura da voz e dei-lhe gagueira. Por fim eu dirigi meus comandos eletromagnéticos pra os seus olhos invertendo os sinais da córnea e ele começou a enxergar tudo de ponta cabeça.
Eu tinha que ser rápido, pois isso dura poucos segundos e as pessoas talvez não percebessem o que estava acontecendo com ele. Voltei imediatamente pra meu corpo, me levantei e fui na sua direção. Tomei o revolver das suas mãos, aproveitando a fragilidade momentânea e o empurrei até a calçada do bar. As pessoas deitadas no chão levantaram-se extremamente vingativas e sagazes por vingança. Começava ali um processo de linchamento e todo tipo de violência contra o menino. A mulher que fora socada no rosto pegou uma faca na pia e começou a esfaqueá-lo sem muita habilidade, não sabendo ao certo, onde feri-lo. Fui vendo o sangue jorrar pela calçada e o corpo miúdo do menino agonizando pedindo socorro pelo chão.
Uma roda se formou em volta e olhares ávidos por justiça comemoravam a reação das vitimas.
Enquanto o menino que recobrava as funções motoras e a sua visão, tinha que se defender das facadas da mulher enlouquecida naquele momento. Até que a policia chegou e pôs fim aquela farra. O menino foi levado pra o hospital ainda com vida e a mulher pra delegacia, ainda com raiva. Sai rapidamente daquele burburinho andando pelas ruas próximas do local , acendi meu cigarro e  senti minha cabeça ficar totalmente zonza e tudo começou a escurecer. Consegui caminhar alguns passos até cair ao chão, sem perceber que havia levado um tiro, desde então vagueio entre os humanos, esta raça de estúpidos.

 

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A ameaça dos urubus

Naquela mesa da calçada, como eles faziam sempre as sextas, Mauro e mais dois colegas de trabalho tomavam sua cervejinha ao final do expediente de trabalho, no mesmo bar de sempre. Naquele dia, porém, notaram a presença de um urubu que os rodeava, vinha ao chão, voava até o telhado e plainava ao redor, como se tivesse de olho em algum resto de comida.
Tentaram espantar o bicho por várias vezes, mas era sempre inútil, voltava a ficar próximo deles. Chamaram o dono do bar e pediram uma explicação para aquele acontecimento estranho. O senhor anda tratando este urubu com restos de alimentos? Perguntou um dos colegas- Não senhor! É a primeira vez que eu vejo este animal por aqui. Respondeu. Após pagarem a conta e fazerem diversas piadas com o ocorrido, foram cada um para seu lado.
Mauro descia a rua rumo ao metrô quando teve a impressão de ser seguido, olhou para trás e viu o pássaro negro a rodeá-lo. Achou engraçado e se lembrou das piadas com os amigos. Após vários passos largos e uma corridinha, olhou novamente para trás e viu os olhos fixos do carniceiro dirigindo-se a ele.
Sentiu um friozinho na espinha, como se fosse ameaçado, mas caindo em si pensou: Agora dei pra ter medo de urubu? era só o que me faltava! Entrou na estação central e pegou o trem, rumo a sua casa, ria sozinho sentado ao lado de outros passageiros lembrando-se do urubu.
A noite em sua casa, após o jantar, sentou-se no sofá e passeava com o controle da televisão, quando sua mulher, puxando assunto, indagou sobre o seu dia.
-Você não acredita que um urubu ficou rodeando nossa mesa no bar e me seguiu a até a estação do metrô hoje! Acredita?
– Vai ver você esta morrendo e ele esta esperando o corpo cair e apodrecer por ai, para ele se alimentar. Ria debochadamente.
-Engraçadinha! Como ele sabe se eu vou morrer. Ainda mais, ser esquecido por ai e apodrecer? Resmungou.
-Não sei, mas eles desconfiam, é o seu instinto. Voltou a rir.
Uma semana se passou, novamente eles estão sentados na mesma mesa daquele bar, o urubu começa a sobrevoar o lugar, em poucos minutos, começam a aparecer outros pássaros iguais, parecem estar com raiva, começam a buzinar e olhar fixos para Mauro, desta vez os colegas ignoram as piadas, resolvem ir embora, pagam a conta e sai cada um para o seu lado, nada dizem um ao outro, parecem assustados. Mauro começa a se preocupar, os urubus começam a se multiplicar, sobrevoam pelo seu caminho, fazem voos rasantes, olham fixos para os seus olhos, parecem emitir raiva, os olhos de alguns parecem vermelhos, os olhos de outros parecem famintos, Mauro corre, desta vez, desesperadamente, entra na estação do metrô, seu coração esta acelerado, seu fôlego começa a faltar, senta e descansa , olha pela vidraça, vê alguns se debaterem no vidro das janelas da estação e de repente somem pelo céu que escurecia. Entra no trem, senta na poltrona, pálido,
começa a tremer, anda de um vagão ao outro, não consegue se acalmar, os passageiros notam a aflição, uma senhora começa a falar em nome de Jesus algumas palavras, ele se irrita, corre entre os vagões, desce uma estação antes de casa, sai correndo pelas ruas, chega a sua casa, pega umas roupas e começa a fazer uma mala, sua mulher assustada pergunta o que esta acontecendo, Ele diz: São os urubus! Eles querem me pegar, preciso fugir.
Anita, a sua mulher, pega o telefone, liga para sua sogra, conta o ocorrido, faz umas perguntas, desliga e volta a fazer outra ligação, desta vez para o farmacêutico, pede conselho, pergunta se existe algum tipo de remédio para acalmá-lo, desliga e vai até a porta, abre e olha para o céu, nada vê. Vai para o fogão, põe agua para ferver para fazer um chá de camomila com maracujá.
Mauro enche um copo de conhaque, toma, enche outro, engole, enche mais um, receia, mas toma. Vai até as janelas olha para o céu, grita como um lunático, Cadê vocês seus filhos duma puta! Apareçam, seus desgraçados, vou matar um a um! Senta no sofá, começa a chorar e rir ao mesmo tempo. Anita chega com o chá, senta ao seu lado, nunca tinha visto Mauro naquele estado, tenta conversar.
-Fica calmo Amor! Toma esse chá, vai passar… Ela apoia a sua cabeça sobre os seus ombros, conta sobre o seu dia, sobre o filho, sobre a vizinha, tenta puxar assunto, tenta entretê-lo com outros pensamentos. Mauro vai se acalmando, acalmando… Até que relaxa e cochila no colo da mulher. Durante o domingo, Anita, conversa bastante com ele sobre o ocorrido, dá o endereço de uma amiga que se formou psiquiatra e que ia fazer um
preço mais camarada, depois de falar com ela ao telefone e ouvir dela o alivio que bastaria um simples remédio pra ele parar com esta loucura. Mauro se diz propenso a visita-la, resolvem esquecer o assunto e falar dos planos para o mês seguinte, que seria férias. O fim de semana passa…
Novamente é sexta feira, nenhum dos colegas de trabalho toca no assunto, não vão ao bar, vão direto para casa. Mauro pega um táxi, não vai de metrô. Passa na padaria perto de casa, toma uma cervejinha, compra pão e frios para o lanche, desce a rua calmamente,refeito do susto da semana passada, tomando um comprimido de revotril ao dia.
Gira o trinco da porta, entra, vai até a cozinha, põe os frios na geladeira, abre uma cervejinha, senta no sofá, liga a tv, procura por um canal de esporte, aliviado, esboça um sorriso e se sente seguro no conforto do seu lar.Meia hora depois, sente falta da mulher e do filho, não ouve barulho nenhum dentro de casa, Não estão em casa, deduz! Começa ligar para o celular dela, ouve o aparelho tocar debaixo da almofada, imagina que devam estar na vizinha! Vai até lá, toca a campainha, pergunta por eles, não estão, fica preocupado.
Volta para casa, anda pelos cômodos, vê peças de roupas espalhadas sobre a cama, não encontra a mala em cima do guarda roupa, vai até o quarto do filho, não encontra o pôster pendurado do Batman, se desespera. Vai até a cozinha, encontra um bilhete escrito: Eles voltaram, fuja!

 

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O assassinato de Maria

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Naquela segunda feira não acordei bem, estava de férias, o sol estava radiante, a praia me chamou pra uma caminhada à beira mar. As mulheres pareciam mais lindas do que nunca, parecia até que eu não tinha reparado antes como elas eram exuberantes. O transito da manhã estava calmo, podia ouvir o som das bicicletas se aproximando pela ciclovia, tinha dinheiro suficiente pra fazer qualquer coisa, mas ficava ali na beira do calçadão vendo aquela paisagem, pensando na minha vida, tomando uma caipirinha de manhã, fazendo planos praa tarde. Talvez eu devesse passear ao centro, ir a um cinema ou naquele bar que tanto me convidavam… Sei lá! Estava em paz naquele momento, fiquei meio sem pensamentos. Eram as primeiras férias de verdade que eu tirava em tantos anos. Eu sempre tinha compromissos de trabalho diferentes em férias anteriores, que nem sabia mais o que era ficar sem uma atividade.
Que tal fumar uma maconha agora, pensei. Porra! Fumar maconha! Você esta ficando louco, retruquei.
O que é que tem? Puxar um fuminho agora de manhã, fazer a cabeça, ficar bem leve. Não! Nunca. Decidi.
Acho que eu vou pra casa, posso me render a estes pensamentos e acabar em uma boca de fumo atrás de um erva.
Caminhava de volta pra casa, tranquilamente, apreciando a paisagem da beira mar, engraçado! Como isto é tão diferente quando se anda a pé e sem pressa nenhuma, que maravilha de passeio!
Que tal a gente matar a empregada? Veio à cabeça este pensamento. Caralho eu estou ficando louco mesmo… Que isto! Sou uma pessoa diferente hoje, debatia com meus neurônios. Nunca mais peguei numa faca, nunca mais tive ódio de ninguém, faz muito tempo que eu saí da prisão, a minha vida esta tão organizada agora, porque estas ideias de repente? Relutava comigo mesmo.
A tua vida esta sem emoção, tá uma bosta! Vamos matar a filha da puta! -Você esta me sacaneando, nada vai me fazer isto agora, tente relaxar, já passou, não somos mais assim… Assistia o dialogo interior comigo mesmo, meio sem noção de quem era eu naquele momento.
Cheguei ao centro da cidade após quinze minutos de intensa conversa comigo mesmo, tentando entender porque eu estava pensando daquela maneira. Porra! Já não faz mais sentido.
Entrei no bar e pedi uma cerveja bem gelada, o calor me deixou sedento, sentei a mesa e fiquei vendo um pouco de televisão. O bar estava vazio, só duas mesas ocupadas, mesmo assim pareciam que nem estavam ali, pois o silencio em volta era marcante.
Aquele silêncio. Aquela tela na parede sem graça nenhuma. Foi me dando uma vontade de arranjar uma confusão, fui até a calçada e comecei a encarar os transeuntes, de forma a intimidá-los. Mas porque eu fazia aquilo de novo? Eu me questionava. Será que eu terei uma recaída, não pode ser! Os remédios estão em dia e eu nunca mais vi aqueles dois filhos da puta de novo. Porque esta raiva de repente? Não entendia, sai correndo daquele lugar pra ir embora, peguei um taxi pra chegar mais rápido e não ter que lutar tanto contra os meus pensamentos.
No caminho fui me acalmando, conversei um pouco com o taxista, era um cara bem humorado, me falava de coisas engraçadas, tipo futebol, politica, fofoca de artistas, não me lembro de tudo.
Cheguei ao prédio em dez minutos e logo subi. Totalmente tranquilo. Nem maconha, nem briga na rua, nem assassinatos. Assassinatos! Pensei: A Maria esta em casa! Puta que pariu… Fodeu!
Entrei pela porta de serviço e logo dei uma marretada na cabeça dela com meu martelo que ficava na lavanderia, ela caiu no chão, meio desacordada, dei mais uma, ela gritou, tapei a boca dela com mais uma marretada na boca, alguns dentes saltaram. Vi que ela desmaiara, ainda não estava morta. Fui à cozinha e escolhi a melhor faca que tinha. Amolei-a vagarosamente, sentindo aquele prazer incompreensível saltando pela respiração, o coração batia tão calmo e tranquilo que podia flutuar, era um prazer que tomava conta de todo meu corpo e da minha alma. Podia sentir o sangue correr dentro de mim. Relaxando cada célula do meu corpo que se saciava naquele momento tão esperado depois de tantos anos.

A estratégia

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Cortei primeiro a garganta, o sangue dela espirrava pela área de serviço, eu nem sabia direito o nome completo dela, por dez anos eu apenas ajustei algumas ordens e nunca mais tive do que me queixar do que ela fazia. Parecia uma boa moça. Mas eu não tive culpa, essas pessoas a gente não escolhe, elas aparecem na nossa frente, a circunstancia que escolhe.
Retalhei o restante do seu corpo e coloquei nos sacos de plásticos reforçados que estavam guardados desde a última vez. Tinha trabalho para a tarde toda, enfim. Alguns cuidados eu tive que tomar. Liguei na portaria e perguntei se o porteiro podia ir até a farmácia comprar alguns analgésicos e efervescentes. Disse a ele que a Maria estava passando mal. Pouco tempo depois avisei que ia leva-la pra casa porque ela já tinha melhorado e aproveitaria pra fazer umas compras na região onde ela morava. Sai pela garagem com meu carro de vidro filmado, para que, fosse registrado a sua saída comigo dentro do carro.
Assim que peguei a balsa, coloquei meu carro rente a lateral do guard rail, eu tinha pelo menos 45 minutos pra dar fim naquele corpo, as pessoas sairão do carro pra tomar um café, fumar um cigarro ou tomar um ar e facilitarão o meu trabalho. Em menos de 20 minutos o serviço já estava completo, faltava limpar o apartamento agora.
Passei no mercado e comprei o material necessário pra limpeza. Aquilo me excitava demais. Precisava disto á muito tempo, escolhi o melhor de cada produto. Era a minha reestreia, a cabeça agora fazia planos mirabolantes pra me livrar da policia, estava em êxtase. Não existe crime perfeito, apenas o bem- feito.
Foi assim que peguei alguns anos de cadeia por uma acusação de estelionato e não de assassinato, mais uma vez eu tinha me safado e dessa vez não seria diferente.
O assassinato não é a melhor parte do crime. O melhor vem depois quando tenho que desviar a acusação sobre mim, se por acaso, acharem o corpo. Preciso ser mais inteligente do que a investigação, eliminar qualquer pista que leve a mim e depois rir dos idiotas que não conseguem fazer o seu trabalho direito, não resolvendo o caso de assassinato de uma pobre mãe família.
Eu cheguei por volta das três horas da tarde. Subi com o material de limpeza e comecei o trabalho de tirar todas as possibilidades de ser descoberto, de não haver suspeita alguma contra mim.
A assepsia que eu deveria fazer naquele apartamento demoraria horas, nada melhor do que Mozart ao fundo, cozinhar um pernil com ervas demoradamente e depois abrir aquele vinho de Bordeaux de ótima safra.
Enfim, meu primeiro dia de férias estava sendo muito bem aproveitado. É certo que terei mais atividades durante este período, mas esta sensação maravilhosa de viver intensamente não se tem todo dia… Sei apenas que sou um instrumento muito bem qualificado pra vida contar a história da humanidade.

 
 

O preço

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Primeiro, a luz que vinha da janela, depois o relógio que tiquetaqueava como uma britadeira, depois ela, a desgraçada e incompreensível dor de cabeça. – Onde estou? Que porra de lugar é este? Olhei ao redor com os olhos pesando uma tonelada. Nada entendi. Procurei meu celular pelo chão da sala, com as mãos estendidas até onde elas podiam ir; debruçado sobre o sofá. Caralho que cachaça foi essa! Cadê os meus comprimidos, procurei nos bolsos, nada! Procurei na carteira, nada! Fiquei ali por uns instantes, tentando lembrar o que tinha que fazer naquele dia e querendo entender o que tinha acontecido no dia interior.
Puta que pariu! Tô mijado! Quem me trouxe até aqui? Onde tem comprimido nesta porra? Levantei, dei uns passos até a cozinha, havia um tanque cheio de roupas sujas na lavanderia, joguei tudo no chão e comecei a mijar. Vendo por uma pequena janela a altura do prédio, devia estar no vigésimo andar.
Voltei para sala cambaleando, dei uns passos até o quarto e vi deitada sobre a cama, a mulher mais linda do mundo! Puta que pariu , será que eu comi esta daí? Fui mais perto para ver de perto aquela escultura talhada a dedo. Bom dia, disse ela com uma voz mais linda ainda, dormiu bem? Ela me olhou com uns olhos verdes que brilhavam tanto que irradiava luz pelo quarto meio na penumbra ainda, por causa da janela ainda fechada.
-Sim, muito bem. Respondi meio acanhado pelo cheiro da roupa mijada, Desculpe, não me lembro de muita coisa ontem, você tem aqui paracetamol? Perguntei.
Não, infelizmente não tenho o habito de tomar remédio, posso fazer um coquetel de legumes e frutas que é tiro e queda pra você, você quer?
-Sim, respondi meio frustrado.
Ela levantou apenas com a calcinha de renda minúscula, revelando a consistência da pele das coxas de uma menina no ápice do seu corpo. Foi até a cozinha e preparou uma jarra da poderosa receita que se tratava de um segredo de família. Trouxe até mim com um sorriso no rosto, deixando parte dos seios fartos à mostra.
-Tenho um moletom e uma camiseta no armário, vou pega-los enquanto você toma banho. Quase que ordenou, delicadamente.
Puta que pariu! Que mulher do caralho é essa! Tentava lembrar como eu tinha conhecido e conseguido comer uma mulher desta enquanto tomava banho e sentia a combinação de cheiro de sache de laranja com lavanda perfumando o banheiro extremamente limpo e organizado.
Sai do banheiro já melhor, o suco verde já estava me recuperando, a cabeça doía bem menos, o corpo estava mais disposto e fortalecido, parei uns segundos em frente ao espelho e lá fiquei. Engraçado! Parece que existe um lapso de memória gigante em mim.
Da sala vinha um barulho de secador de cabelos e um cheiro forte de Listerine que ela usava pra desinfetar o sofá e tirar o cheiro da urina.
Usava um shortinho minúsculo e uma camiseta deixando a mostra o umbigo e um abdome sarado, fiquei mais perto para ver se era tudo de verdade. Desculpe por isso, eu tenho esse problema quando bebo demais. Falei meio envergonhado, por que isso é coisa de criança.
-Tudo bem, Rodrigo, eu entendo estas coisas. Respondeu sorridente.
-Você pode me dizer seu nome, desculpe, mas não me lembro.
-Isabela.
-Pode me dizer como nos conhecemos, Ontem?
-Não foi ontem, já nos conhecemos á algum tempo,
-Desculpe, mas não estou entendendo, uma mulher como você é inesquecível, Eu não me lembro de ter te conhecido e não ter me apaixonado. Fui galanteador.
-Ah! É assim mesmo, esse é o efeito da droga.
-Droga, que droga! Você me drogou ontem à noite?
-Não, não sou eu que faço este serviço, eu apenas estudo o comportamento do usuário.
-Não sou usuário de nada, nem maconha eu fumei na vida.
-Sim, entendo! Não é culpa sua, todos dizem a mesma coisa.
-Outros, que outros, o que esta acontecendo, me fala.
-Bem, não posso explicar ainda, espera os caras chegarem.
-Que caras? Assustado, indaguei.
-Fica calmo, logo você vai saber. Quer café? Eu acabei de coar.
-Não obrigado, preciso de um cigarro, sabe onde esta meu paletó?
-Desculpe. Cigarro não se fuma aqui, tem que fumar na sacada. O seu paletó esta pendurado naquela cadeira do canto. Falou apontando para uma direção.
Fui até a sacada e comecei a fumar, enquanto punha as ideias no lugar, mas que porra aconteceu meu deus! De que droga esta gostosa esta falando? Ouvi a campainha tocar e ela caminhar até a porta para abrir para dois caras entrarem. São eles! pensei. Ela apontou para mim e os caras vieram na minha direção.
-Podemos conversar seu Rodrigo,
-Sim, caminhei até a sala e sentamos ao redor de uma mesa de mármore. Por favor, me contem o que esta acontecendo.
-Bem, o senhor nos pagou uma boa quantia, para ter essa experiência, estamos aqui para sabermos como foi o resultado.
-Experiência, que experiência, não me lembro de nada! Paguei, quanto que eu paguei?
-Calma, seu Rodrigo, vamos seguir o combinado.
Isabela chegou com uma travessa de café, mais gostosa e linda do que nunca. Era a única coisa que não me fazia surtar ali, serviu os cafés e deixava a mostra um pedaço de calcinha saltar pelo minúsculo shortinho.
-Contem tudo, por favor. Implorei.
-Bem, estamos testando uma nova pílula que faz você passar pelos próximos três meses que você viverá sem experimentar o sofrimento que ele poderia causar. Você veio até nós e quis experimentar a medicação. Esta pílula tem a capacidade de tirar todas as emoções ruins que deveriam acontecer com a pessoa, independente de qualquer acontecimento, começando pelo momento que antevia o fato. Ela faz com que todos estes últimos 90 dias possam ser recontados e sentidos sem emoção nenhuma, é uma pílula muito poderosa, estamos aqui exatamente para contar a sua história e documentar a sua reação.
-Caralho, que cassete! O que vocês vão me contar? Meu filho morreu, minha mulher me traiu, minha filha fugiu com o guarda da rua, minha empresa faliu? Eu perdi meus pais, algum irmão? Por favor, conte-me logo.
-Meu caro Rodrigo, veja bem, qualquer noticia que eu lhe der, não vai dar a você nenhuma reação de sofrimento, você ainda esta sobre o efeito da ressaca do remédio.  Essa reação de espanto e ansiedade é comum, por isso nós trouxemos a outra parte do tratamento, a pílula do dia seguinte, o senhor precisa tomá-la imediatamente, faz parte do tratamento, é indispensável para que o tratamento fique completo. Você tinha com você apenas a primeira pílula, a outra está em nossas mãos.
Isabela, por favor, nos traga agua, ordenou a ela.
Assim que tomei aquela capsula gigante e gelatinosa, acordei no meio do cemitério assistindo meu próprio enterro, enquanto Isabela me contava como tinha sido meus últimos três meses de cativeiro até o momento da bala do revolver atravessar minha cabeça.
 

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