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A farsa de um agente

Caminhava pela estrada de terra rumo a rodovia para encontrar um posto de gasolina. Meu carro estava 1450178_211609315686254_1868628989_ncom o marcador de gasolina quebrado e achei que seria possível chegar ao posto mais próximo. Por vários motivos ainda não tinha arrumado este defeito e naquela estrada, com um galão na mão, pensava sobre isto.

O que será que faço neste mundo que me faz passar por situações tão absurdas como esta, ficar sem gasolina no meio de uma mata numa estrada cheio de buracos em São Sebastião? Será que preciso aprender a ser mais organizado? Será que estou sendo punido por atitudes de outras encarnações, será que é necessário acontecer isso comigo mesmo? Porque não tenho controle de me safar das intempéries da vida? Eram muitas perguntas em minha cabeça, além do fato de estar com uma puta dor de cabeça provocado por uma renite que a muito tempo não cuidava.

Comecei a entrar em um labirinto de respostas vindas de pensamentos que não me eram familiar. Assistia uma guerra de acusações ao mundo e lembrava das reuniões filosóficas que tinha aos dezoito anos com meus amigos de bar, bravejando bêbados, ideias absurdas sobre a vida.
Cheguei a uma conclusão meio sem pé nem cabeça que foi se desenrolando durante a caminhada até o posto de combustível.
Não sou agente da minha vida! não há como ser. Não é possível o livre arbítrio para os seres humanos nem mesmo para as bactérias mais microscópicas. Não tenho controle do que faço, nem mesmo escolho entre uma roupa ou outra. Tudo é uma ação original espontânea e universal que cabe a mim apenas reagir.
O fato de pensarmos ser o dono da ação é devido ao fato de sermos naturalmente orgulhosos de uma imagem de si que é totalmente falsa. O mundo vem a mim e eu reajo a ele. É simples assim! Mas aceitar isto é a mais difícil das tarefas. Esse fato desconstrói a presunção de sermos aquele que realiza e é premiado por suas ações. Então podemos ir aos fatos concretos e desmascarar este agente que imaginamos ser.
Em primeiro lugar, devemos entender que somos todos parte integrante da natureza, e que como partes, participamos dela, não a conduzimos. Somos engrenagens que se encaixam em um movimento manifesto que se apresenta diante dos nossos sentidos.
Tudo que achamos ser uma ação é na verdade uma reação, determinada por um ambiente que reagimos com nossos instrumentos intrínsecos e herdados pelas circunstancias que foram ao longo da vida apresentadas.
Que força interior move um alpinista a escalar o monte Everest? Que desejo faz com que eu fume, sabendo que me faz mal, que eu beba sabendo que ficarei bêbado, que eu dance e me achem tolo, que eu viaje para descansar e volte mais cansado ainda, que eu me case sabendo que isso privará muito minhas ações de liberdade, que eu ame alguém que não me ama?
Todos os desejos que nos movem, brotam inconscientes em nossa mente e vão se expandindo até que se realizem e tornem-se manifestos. Somos instrumentos do mundo que quer se conhecer, diria alguém poeticamente. Eu diria que reagimos ao mundo pelas possibilidades individuais de acolher a sua vontade de ação.
Estou andando na rua e alguém irritado me xinga, me humilha, ameaça me agredir se eu não sair da frente dele. Olho pra meu interior e vejo que sou covarde e que não gosto do embate, ignoro e continuo meu caminho e depois julgo-lhe por ser simplesmente um estupido, confortando minha covardia e aceitando meu comportamento. Estou ciente do que sou, do que quero preservar como identidade adquirida. Alguns passos adiante encontro um revolver carregado à beira da calçada, perdido por um policial relapso, ponho em minha cintura e continuo a caminhar. Pensamentos diferentes começam a vir em minha mente, por que? Por qual motivo? Talvez porque agora eu posso ser mais forte do que minha covardia. Volto pelo caminho onde fui ameaçado e atiro na pessoa que me ultrajou sem que não houvesse motivo algum de me ofender. Fico pensando onde estaria minha ação neste caso e não a encontro de forma alguma.
Estas ideias começam a se multiplicar em minha cabeça, quando minhas mãos começam a doer carregando o galão cheio de gasolina fazendo o caminho de volta ao meu carro sem combustível. Debato comigo mesmo o exemplo pensado a pouco e começo a negar minha reação de vingança e assassinato. Surge a possibilidade de ter sido diferente o quadro do acontecimento. Imediatamente vem em mim um estado de revolta e dor, por ter sido tão idiota ao ponto de deixar faltar gasolina no meu carro e estar sofrendo com dores horríveis em minhas mãos, tendo que carregar esta porra de galão. Começo a me xingar e me revoltar comigo mesmo. Um carro vem em minha direção cheio de pessoas rindo alto e parecendo drogadas, olham pra mim e gritam alto: Se fodeu, seu trouxa! Depois partem rindo mais alto ainda e olham pra traz com zombaria e desprezo. Meu estado emocional altera muito e tenho vontade de ter o revolver que tinha na minha imaginação. Então penso como sou apenas um reagente dos fatos.

fotos-emocionantes-27Nada que acontece esta sobre meu comando, estou sendo levado a caminhos sempre diferentes de estados racionais e emocionais. O mundo externo influencia tudo que devo fazer sem que eu possa escolher. Se ajo apenas diante do apresentado, como pode ser isso uma ação? Se diante das circunstancias já fica predeterminado aquilo que devo fazer por ser a única escolha possível, pois sou guiado a realizar o que é da minha natureza fazer.
Lembro de exemplos banais do passado e tento contestar esses pensamentos, mas o primeiro que me vem é de onde veio esse próprio pensamento? De onde vem os pensamentos que passam na minha cabeça, por quem são enviados, quem deu a autorização deles virem a mim? Por que não ficam em uma estante imaginaria e vou a eles para escolher qual deles devo pensar? Se não sou dono do que penso, pois não os escolho, sou apenas um espaço-tempo onde eles se manifestam, então, apenas reajo a eles e os deixo conduzir minhas ações, que fica claro aqui que são só reações.
Planejo minhas férias para um praia bem legal, levo em conta todas as possibilidades: Dinheiro a ser gasto, pois o lugar tem o seu preço, não fui eu que os fiz.
Também considero as praias próximas e quem os frequenta. Elas já estavam lá com seus atrativos e foram oferecidas a mim o que poderia agradar-me nelas, não fui eu que criei nenhum atrativo para elas, apenas reagi as suas possibilidades.
Os turistas que frequentam tais praias tem suas características, tais como: educação, rodas de samba ou lual, povoamento, exageros, consumo de álcool, etc….
A infraestrutura, distancia a ser percorrida, o comportamento do mar, se é bravo ou calmo, se tem ondas ou parece uma piscina, etc…. Todas estas possibilidades vão ao meu interior e lá se encaixam naquilo que eu espero ser o prazer que preciso para estas férias. Então neste momento existe escolha? Penso eu. –Negativo, não existiu em nenhum momento escolha alguma. Você tem férias porque seu stress e seu corpo precisam de novos ares para se recuperar, houve escolha aí? O lugar aonde você escolheu para ir está dentro de todas as possibilidades de um quadro interno que você não criou, foi-lhe direcionando e você foi tendo a impressão de ser suas as escolhas, mas não foram.
Escolha agora fazer qualquer coisa que não esteja de acordo com uma autorização externa e perceba que não poderia. A vida que te guia não é sua, a própria sensação de ser uma vida é uma ilusão.
Colocando gasolina no tanque de combustível, pensei em acender um cigarro, mas outro pensamento veio e proibiu. Pensei em voltar pra casa e desistir de ir a algum lugar, mas outro pensamento veio e me deu incentivo de ir adiante. Entrei no carro e pensei em ir até um quiosque para tomar uma cerveja e comer uns camarões, antes porém, outro muito mais forte me ordenou passar no posto de combustível e completar o tanque, enquanto que outro dizia que já podia fumar…
Existe um turbilhão de possibilidades acontecendo dentro da tua e da minha cabeça, mas existe somente uma coisa a fazer, nunca há dualidade. Somente uma ideia de probabilidade mal compreendida, um sonhar acordado que não tem função objetiva nenhuma.

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Assim que cheguei ao quiosque, vi que estava muito cheio e havia muitas pessoas ali tomando cervejas e comendo seus petiscos, poderia escolher ir a um outro lugar, pois eu queria um pouco de privacidade e sossego, mas as circunstancias me fizeram parar ali mesmo. Mas, por que? Pensei. Logo me veio a resposta: os acontecimentos é que acontecem, não eu que aconteço, eu apenas sou guiado a presenciá-los, pois todos os fatos só fazem sentido diante da minha reação a eles, se assim não fosse, uma peça estupida e sem graça poderia ficar anos em um teatro sem que a reação da plateia as influenciasse a sair de cartaz ou mudar seus personagens enfadonhos.
Só a reação pode mudar a ação externa e não a ação mudar uma reação. Quer dizer que ao reagirmos mudamos o quadro externo? Sim e não ao mesmo tempo. Sim se você estiver desperto e ignorá-lo e não se você se importar com ele ao cabo de transforma-lo em novas reações.
Explicarei mais tarde esta afirmação, pois o fato mais lógico que percebo até agora é que reagimos à reações. O verdadeiro autor da ação é desconhecido neste quadro, iremos a sua busca em breve, antes porém temos que desmascarar uma outra grande mentira: A existência de um Eu que se intitula o autor da ação.

CONTINUA EM BREVE

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Publicado por em 05/01/2014 em crônicas, TEXTOS DIVERSOS

 

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Micro organismos- parte 01

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Corria pela artéria de um corpo humano, um grupo pequeno de micro organismos, talvez houvesse apenas um milhão deles, dentre eles, porém, havia um em estado transtornado de ansiedade. Era Chamado de W2-elemento neutro4. Era um daqueles entre o grupo que tinha sempre algo a mais a exigir. Era de poucos amigos, sisudo e introspectivo. Vinha de um grupo de gerador moleculares atuantes no meio político e formador de opinião, mas foi rejeitado pelo próprio grupo parental, por ser bastante reacionário. Tinha ideias bastantes avante do seu próprio tempo, na verdade foi deserdado pela mesma matriz por atuar em glóbulos entorpecentes.
-Vamos acabar com os humanos, dizia sempre quando voltava de algum antro.
A maioria não lhe dava atenção. Ignoravam suas falas sempre estranhas. Há muito tempo, contavam os ancestrais, que houve um entre eles que conseguiu a façanha de juntar-se a forças negativas, e formar um exército de 20 bilhões, e assim difundiram-se em milhares de corpos hospedeiros eliminando seus movimentos e irrigação. Foi um momento da história que tiveram que dar acolhida a visita inesperada de extraterrenos, precisava de muitos corpos em decomposição para poder alimentá-los, houve muita confraternização e abundancia. Dizem alguns que este momento histórico foi chamado de a peste negra entre o meio humano.
-Eu sei como acabar com todos eles! Bravejava antes de entrar nos coágulos.
Após algum tempo com este comportamento subversivo, W2 foi encaminhado para o departamento de correção comportamental, sob a tutela de muitos pesquisadores, analistas e conselheiros para julgarem se era possível sua volta ao círculo sanguíneo. Mas foi em vão.
Dia após dia, W2 fazia amigos e simpatizantes pela sua teoria, outros micros seres se juntavam ao final de cada ciclo diurno para ouvir suas ideias. Aquele grupo liderado por ele tomava proporções preocupantes ao comandante geral da unidade que habitavam. Decidiram até puni-los e expulsa-los, caso não deixassem de difundir mensagens como esta. O comandante geral chamou-o para uma reunião, pois gostaria de saber se havia motivos suficientes para se preocupar com ele e o grupo que lhe seguia.
No circuito sanguíneo marcado para a reunião, W2 chegou escoltado por micro construtores vermelho, era a classe orgânica, contratados para este serviço, temidos por sua alta disseminação atômicos e procedimentos não muito convencionais de persuasão.
-Sente-se W2, disse o comandante geral. Conte-me sobre esses rumores que vieram aos meus sentidos. Continuou.
-Bem, estou muito revoltado com o comportamento da humanidade, gostaria de eliminá-los. Estamos esperando a muito tempo que eles mesmos se destruam, mas estão se tornando muito resistentes. É hora de nos unirmos e expulsá-los deste planeta, Todos estão fartos de sermos a fonte deles.
-Eles têm sido útil como hospedeiros da nossa classe e ainda não temos planos concretos para uma nova forma evoluída de espécie, tenha calma. E além do mais, não existe nada que nos afete nas ações estupidas deles. Por enquanto eles estão de acordo com o nosso plano.
-Infelizmente, comandante, a maioria pensante já teve acesso a informação da imigração de novos corpos e quase todos nós já estamos cientes da nova era. Tenho planos celulares para intoxica-los em um prazo muito curto.
-Você está se referindo a nossa célula verde?
-Não, nunca. Jamais pensei nela. Estou falando de métodos mais eficazes. Se fosse possível, eu gostaria de marcar uma reunião para demonstrar todos os possíveis procedimentos.
-Esqueça tudo, isto está fora de questão. Não vou permitir que desestruturasse nosso território corporal, com informações sigilosas e ideias contraventoras. Vou deixa-lo em clausura por algumas circulações completas.
-Algumas circulações! Por favor, não faça isso comigo.
-Não posso deixa-lo por ai a convencer nossa população com essa oratória estupida.
-Não é estupida, Comandante. Deixe-me explicar tudo em uma reunião que eu lhe provo que estaremos fazendo bem ao planeta.
-Não sabes que também somos seres de circulação, que somos seres hospedeiros também? Já imaginastes a possibilidade das partículas subatômicas pensarem o mesmo que você? Tire umas férias, deixaremos você e seu grupo por um tempo nas planícies da celulite glútea, podem se divertir por um tempo e colocar os pensamentos em ordem.
-Por favor, não preciso de férias, preciso de ação.
-Está decidido, será transferido no próximo círculo sanguíneo.
W2 e seu grupo foram tirados de circulação por um tempo, mas a essência subversiva ainda era o fator predominante entre eles. Eles tinham como meta um ataque em massa, sem que houvesse tempo para encontrarem defesa aos ataques. Estava decidido que não deixariam de agir na primeira oportunidade real de levar toda a população humana ao extermínio. Seu plano era atacar as gorduras desnecessárias do corpo humano, eliminando-as e induzindo-os a desejarem, mais e mais, viver sem este incomodo. Haveria uma nova forma estética fácil de conquistar com essa descoberta. Uma nova droga oferecida pela natureza que certamente seria produzido em massa e sinteticamente como medicamento. Por serem por essência, exploradores de sua própria raça, não pensariam duas vezes em agirem desta forma.
Milhões de seus membros estariam dispostos a se voluntariar produzindo-o, resultando em um padrão físico extremamente atraente a eles e de método simples. Essa atitude os deixaria vulneráveis a um ataque em massa de vírus inativos e ainda não conhecidos e que impedia o funcionamento das articulações musculares, por falta de gorduras extras ao corpo. Gorduras que, por serem indesejadas esteticamente, foram eliminadas por essa droga em uso por eles.
Era o truque mais antigo de todos, oferecer algo atraente como isca, mas que ainda seria útil nessa primeira parte do plano.
Após algum tempo, o grupo liderado por W2 voltou ao circuito sanguíneo, mas ainda requeria certa monitoração. O comandante geral ordenou aos agentes que ficassem atentos ao comportamento do grupo e que suas ideias não fossem divulgados para os outros habitantes daquele corpo.

Algum tempo se passou e a história de W2 era apenas uma lenda, todas as células já haviam sido substituídas por novas e todas que agora faziam funcionar o corpo não compartilhavam desta tese e não ousariam a destruir seu hospedeiro. Ficou apenas uma curiosidade coletiva de saber por que chamavam de célula verde, uma célula que era totalmente transparente.

….. CONTINUA EM BREVE.

 
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Publicado por em 04/01/2014 em crônicas

 

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