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Entre os humanos

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Estou sempre com raiva de tudo, sou um desses merdas que vagueiam pelas ruas, ainda inconformados com a morte do Kurt Cobain, tudo poderia ter sido melhor se aquele cuzão não tivesse se matado. Bem, coisas da vida! Não há o que se fazer, morreu e pronto, bola pra frente. Aquela angustia na alma que ele sabia mostrar ficou nos anos noventa.
Achei que seria impossível ouvir o nirvana, nesta porra de casamento, mas não, estão tocando esta merda!  Olhei nos bolsos e o cigarro estava no fim, resolvi sair um pouco, ir até o bar e aproveitar pra dar um gole numa vodca. Que merda eu estou fazendo aqui? Pensei. Depois lembrei que era por causa da Marisa, amiga de infância.  A gente cresceu junto,  Ela sempre me deu uma força, quando eu precisava desabafar ou me esconder por uns tempos.
Não ando com grana,e já faz um bom tempo, estou precisando fazer uns bicos por aí. No mundo tem tanta grana e eu aqui com estes trocados no bolso, que bosta!
Deita todo mundo no chão, bando de filho da puta! Ordenou aquele moleque branquelo, com menos de cinquenta quilos e cara de pedinte de rua. Não olha pra mim, que eu meto bala, vai jogando no chão a carteira e o celular e não fica me tirando de otário, que aqui não tem trouxa não! Falava com a voz violenta e ameaçadora ao mesmo tempo.
Que porra! Que bar do fim do mundo, vim parar. Pensava comigo. Tudo bem, vamos arrumar as idéias e ver o que se pode fazer aqui. Olhei deitado nos pés do menino e vi que o numero do tênis era pequeno, seus passos eram muito rápidos e ansiosos, seu jeito de abrir a carteira e retirar o dinheiro e os cartões de crédito era meio grosseiro, parecia meio assustado.
Resolvi negociar a situação. Eu saí do corpo e dei uma olhada em todo o ambiente. Havia sete reféns, seis homens e uma mulher, talvez a namorada de algum, talvez alguns entediados com a festa de casamento. Bem! O moleque era principiante, notei quando colocava a arma na cintura, não tinha respeito pelo revolver, o instrumento de trabalho deve ser a figura maior neste caso.
O que fazer? Pensei, vou deixar tudo acontecer, sem me meter. Não vou tentar mudar nada neste quadro, deixa o garoto pegar estes trocados e sair logo.
Mas o problema foi que o filho da puta do moleque foi chutar a menina, que não tinha grana nenhuma. Puta que pariu, aí não dá! Decidi agir…
Sair do corpo sempre foi normal pra mim a muito tempo. No começo eu ficava muito confuso e com muito medo de estar morto, depois fui aprendendo a lidar com isso sem me achar um débil mental. Comecei a perceber que de acordo com alguma emoção, conseguia ter controle sobre certos objetos, às vezes conseguia fazer um brinquedo sair do lugar. Com o tempo, agindo com mais habilidade, saia do corpo quando queria e me dava tapas pra ver o que acontecia com o corpo imóvel, muitas vezes até, sem respirar. De tanto fazer isso, me tornei especialista em enxergar nas pessoas os seus medos mais profundos, entrava em contato com a memória e retirava dali suas histórias. Podia ver, como em um filme, sua trajetória antes de chegar até aquele momento.
Vi meu coração batendo mais rápido e assustado naquela cena, vi o desespero daquela menina apanhando e vi aquele moleque totalmente vulnerável a mim. Entrei no seu campo de ação motora e com um simples toque mental no seu sistema nervoso, relaxei totalmente suas pernas. Na verdade, enviei um comando de fraqueza nas pernas e ele começou a cambalear, como se estivesse bêbado. Depois alterei a postura da voz e dei-lhe gagueira. Por fim eu dirigi meus comandos eletromagnéticos pra os seus olhos invertendo os sinais da córnea e ele começou a enxergar tudo de ponta cabeça.
Eu tinha que ser rápido, pois isso dura poucos segundos e as pessoas talvez não percebessem o que estava acontecendo com ele. Voltei imediatamente pra meu corpo, me levantei e fui na sua direção. Tomei o revolver das suas mãos, aproveitando a fragilidade momentânea e o empurrei até a calçada do bar. As pessoas deitadas no chão levantaram-se extremamente vingativas e sagazes por vingança. Começava ali um processo de linchamento e todo tipo de violência contra o menino. A mulher que fora socada no rosto pegou uma faca na pia e começou a esfaqueá-lo sem muita habilidade, não sabendo ao certo, onde feri-lo. Fui vendo o sangue jorrar pela calçada e o corpo miúdo do menino agonizando pedindo socorro pelo chão.
Uma roda se formou em volta e olhares ávidos por justiça comemoravam a reação das vitimas.
Enquanto o menino que recobrava as funções motoras e a sua visão, tinha que se defender das facadas da mulher enlouquecida naquele momento. Até que a policia chegou e pôs fim aquela farra. O menino foi levado pra o hospital ainda com vida e a mulher pra delegacia, ainda com raiva. Sai rapidamente daquele burburinho andando pelas ruas próximas do local , acendi meu cigarro e  senti minha cabeça ficar totalmente zonza e tudo começou a escurecer. Consegui caminhar alguns passos até cair ao chão, sem perceber que havia levado um tiro, desde então vagueio entre os humanos, esta raça de estúpidos.

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A ameaça dos urubus

Naquela mesa da calçada, como eles faziam sempre as sextas, Mauro e mais dois colegas de trabalho tomavam sua cervejinha ao final do expediente de trabalho, no mesmo bar de sempre. Naquele dia, porém, notaram a presença de um urubu que os rodeava, vinha ao chão, voava até o telhado e plainava ao redor, como se tivesse de olho em algum resto de comida.
Tentaram espantar o bicho por várias vezes, mas era sempre inútil, voltava a ficar próximo deles. Chamaram o dono do bar e pediram uma explicação para aquele acontecimento estranho. O senhor anda tratando este urubu com restos de alimentos? Perguntou um dos colegas- Não senhor! É a primeira vez que eu vejo este animal por aqui. Respondeu. Após pagarem a conta e fazerem diversas piadas com o ocorrido, foram cada um para seu lado.
Mauro descia a rua rumo ao metrô quando teve a impressão de ser seguido, olhou para trás e viu o pássaro negro a rodeá-lo. Achou engraçado e se lembrou das piadas com os amigos. Após vários passos largos e uma corridinha, olhou novamente para trás e viu os olhos fixos do carniceiro dirigindo-se a ele.
Sentiu um friozinho na espinha, como se fosse ameaçado, mas caindo em si pensou: Agora dei pra ter medo de urubu? era só o que me faltava! Entrou na estação central e pegou o trem, rumo a sua casa, ria sozinho sentado ao lado de outros passageiros lembrando-se do urubu.
A noite em sua casa, após o jantar, sentou-se no sofá e passeava com o controle da televisão, quando sua mulher, puxando assunto, indagou sobre o seu dia.
-Você não acredita que um urubu ficou rodeando nossa mesa no bar e me seguiu a até a estação do metrô hoje! Acredita?
– Vai ver você esta morrendo e ele esta esperando o corpo cair e apodrecer por ai, para ele se alimentar. Ria debochadamente.
-Engraçadinha! Como ele sabe se eu vou morrer. Ainda mais, ser esquecido por ai e apodrecer? Resmungou.
-Não sei, mas eles desconfiam, é o seu instinto. Voltou a rir.
Uma semana se passou, novamente eles estão sentados na mesma mesa daquele bar, o urubu começa a sobrevoar o lugar, em poucos minutos, começam a aparecer outros pássaros iguais, parecem estar com raiva, começam a buzinar e olhar fixos para Mauro, desta vez os colegas ignoram as piadas, resolvem ir embora, pagam a conta e sai cada um para o seu lado, nada dizem um ao outro, parecem assustados. Mauro começa a se preocupar, os urubus começam a se multiplicar, sobrevoam pelo seu caminho, fazem voos rasantes, olham fixos para os seus olhos, parecem emitir raiva, os olhos de alguns parecem vermelhos, os olhos de outros parecem famintos, Mauro corre, desta vez, desesperadamente, entra na estação do metrô, seu coração esta acelerado, seu fôlego começa a faltar, senta e descansa , olha pela vidraça, vê alguns se debaterem no vidro das janelas da estação e de repente somem pelo céu que escurecia. Entra no trem, senta na poltrona, pálido,
começa a tremer, anda de um vagão ao outro, não consegue se acalmar, os passageiros notam a aflição, uma senhora começa a falar em nome de Jesus algumas palavras, ele se irrita, corre entre os vagões, desce uma estação antes de casa, sai correndo pelas ruas, chega a sua casa, pega umas roupas e começa a fazer uma mala, sua mulher assustada pergunta o que esta acontecendo, Ele diz: São os urubus! Eles querem me pegar, preciso fugir.
Anita, a sua mulher, pega o telefone, liga para sua sogra, conta o ocorrido, faz umas perguntas, desliga e volta a fazer outra ligação, desta vez para o farmacêutico, pede conselho, pergunta se existe algum tipo de remédio para acalmá-lo, desliga e vai até a porta, abre e olha para o céu, nada vê. Vai para o fogão, põe agua para ferver para fazer um chá de camomila com maracujá.
Mauro enche um copo de conhaque, toma, enche outro, engole, enche mais um, receia, mas toma. Vai até as janelas olha para o céu, grita como um lunático, Cadê vocês seus filhos duma puta! Apareçam, seus desgraçados, vou matar um a um! Senta no sofá, começa a chorar e rir ao mesmo tempo. Anita chega com o chá, senta ao seu lado, nunca tinha visto Mauro naquele estado, tenta conversar.
-Fica calmo Amor! Toma esse chá, vai passar… Ela apoia a sua cabeça sobre os seus ombros, conta sobre o seu dia, sobre o filho, sobre a vizinha, tenta puxar assunto, tenta entretê-lo com outros pensamentos. Mauro vai se acalmando, acalmando… Até que relaxa e cochila no colo da mulher. Durante o domingo, Anita, conversa bastante com ele sobre o ocorrido, dá o endereço de uma amiga que se formou psiquiatra e que ia fazer um
preço mais camarada, depois de falar com ela ao telefone e ouvir dela o alivio que bastaria um simples remédio pra ele parar com esta loucura. Mauro se diz propenso a visita-la, resolvem esquecer o assunto e falar dos planos para o mês seguinte, que seria férias. O fim de semana passa…
Novamente é sexta feira, nenhum dos colegas de trabalho toca no assunto, não vão ao bar, vão direto para casa. Mauro pega um táxi, não vai de metrô. Passa na padaria perto de casa, toma uma cervejinha, compra pão e frios para o lanche, desce a rua calmamente,refeito do susto da semana passada, tomando um comprimido de revotril ao dia.
Gira o trinco da porta, entra, vai até a cozinha, põe os frios na geladeira, abre uma cervejinha, senta no sofá, liga a tv, procura por um canal de esporte, aliviado, esboça um sorriso e se sente seguro no conforto do seu lar.Meia hora depois, sente falta da mulher e do filho, não ouve barulho nenhum dentro de casa, Não estão em casa, deduz! Começa ligar para o celular dela, ouve o aparelho tocar debaixo da almofada, imagina que devam estar na vizinha! Vai até lá, toca a campainha, pergunta por eles, não estão, fica preocupado.
Volta para casa, anda pelos cômodos, vê peças de roupas espalhadas sobre a cama, não encontra a mala em cima do guarda roupa, vai até o quarto do filho, não encontra o pôster pendurado do Batman, se desespera. Vai até a cozinha, encontra um bilhete escrito: Eles voltaram, fuja!

 

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